A ética sustentável de Lilyan Berlim

Lilyan Berlim traz em sua carreira diversas perspectivas sobre o mercado de moda. Autora do livro Moda e Sustentabilidade – Uma reflexão necessária, a designer é envolvida com a produção têxtil desde 1984, além de possuir uma importante bagagem acadêmica: mestra em Ciências Ambientais pela UFF, ela também coordena um curso de moda contemporânea em Paris, ministrando aulas no Louvre e na ESMODE Internacional.

Em um bate-papo com o IBB, Lilyan reflete sobre o papel da consciência ética no ensino de moda e traça o seu próprio conceito de sustentabilidade: “Trata-se de redimensionar o olhar”.

 

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Qual a importância de pensar sustentabilidade nos cursos de moda?

Creio que os alunos – não só os de moda – deveriam ter dentro de seus currículos uma visão mais correta de como fazer as coisas. Mais especificamente no design de moda, ao estudar tecnologia têxtil, por exemplo, já deve surgir a consciência de quais materiais são impactantes ou não. Desde que se aprende o conceito de coleção, de desenvolvimento, a gente também deve saber que essas cadeias de fornecimento da moda precisam ser corretas e legais. Estando dentro de uma universidade, é preciso formar profissionais que possam regular esse mercado de uma forma correta, não só na atuação de designers, mas pensando também enquanto futuros gestores e consumidores.

 

Na produção brasileira, o que se destaca?

Pouquíssimas marcas me vem a mente. A gente vê crescendo pequenos ateliês e empresas com a vertente de sustentabilidade em seus DNAs, mas a nossa realidade ainda carece muito de informação. Quando se vai a uma palestra ou congresso e você fala sobre os impactos sociais e ambientais da moda e da indústria têxtil, as pessoas ficam muito surpresas, porque elas normalmente acham que as roupas nascem nas prateleiras. Quando se dá essas informações, você altera um pouco o nível de consciência e revela o efeito dominó dessas cadeias, desses impactos.

As pessoas passam a perceber que qualquer e toda atividade que elas façam desencadeia outras atividades, de que estamos todos interligados. Além disso, vivemos em um momento de mitos. O mito de que o que é sustentável é caro, de que o que é bom necessariamente precisa custar mais, o mito de que a moda requer consumismo. O que precisamos é consumir com qualidade.

 

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Como se muda isso na prática?

A gente vive um momento muito paradoxal: há o despertar de uma consciência sustentável entre empresários, compradores e designers, mas por outro lado é um momento em que emerge uma nova classe com um legítimo poder de compra e quer consumir, além da vinda de grande varejistas globais para o país. Vivemos os picos de complexidades globais e quando a gente fala em moda num país emergente como o Brasil, me passa pela cabeça a importância de gerar emprego. E gerar emprego não é comprar no atacadista global que fabrica suas coisas na China, nem tampouco comprar em qualquer outro lugar que no lugar que você vive. Então acho que sempre é possível pensar em moda e sustentabilidade na medida em que você pensa em geração de renda e de empregos.

 

Afinal, o que é sustentabilidade?

Numa visão pessoal, sustentabilidade para mim é um termo ligado à ética, ética para com todos os seres vivos. Acho que sustentabilidade engloba uma noção de dimensão: redimensionar o olhar, mudar o paradigma e realmente ter ética não só para consigo próprio, mas com o todo.

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