A moda viajante
da Céu

Com uma mochila vazia nas costas e uma ideia na cabeça, Celina Spolaor colocou o pé na estrada. O rumo? México, Guatemala, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. De volta ao Brasil com uma sacola cheia de tecidos e a cabeça cheia de inspirações, ela deu forma à Centroamerica , a primeira coleção da sua marca, a Céu.

Buscando referências lá fora, ela traduz a moda latina em uma moda brasileira, exclusiva e feita à mão.

Para saber mais sobre esse processo, batemos um papo com a mochileira.

 

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Cem peças, todas customizadas, nenhuma igual a outra. Uma das características mais legais de tudo que é handmade é essa ideia de que existe um processo de produção humano por trás dele: ele é pessoal e exclusivo já que foi feito à mão. Como você acredita que essas características aproximam você das suas consumidoras?

Acredito que a peça que é feita à mão, justamente por esse processo humano, carrega uma energia diferente, mais forte do que as roupas de grandes marcas, que são produzidas em larga escala. Eu vejo que as pessoas sentem e valorizam isso. Além disso, as consumidoras sabem quem e como foram criadas as peças que estão consumindo, e isso entrega aos clientes uma transparência que, em tempos de sweatshops [termo que define um ambiente de trabalho inadequado ou perigoso] e abuso de recursos naturais de forma quase desenfreada por muitas grandes marcas, é algo que passa a ser valorizado.

 

Recentemente Walter Rodrigues foi até à Colômbia realizar uma consultoria através do IBB. Na época ele disse: “A busca pela identidade local e a sua decodificação nos produtos, assim como a perpetuação dos fazeres artesanais, estão entre as iniciativas que devem ser aplicadas por uma empresa para que ela se diferencie”. A frase lembra um pouco do seu projeto Centroamerica. Você concorda com ela? Você acha que esse é o diferencial da coleção?

Super concordo. A tecnologia é algo incrível e essencial para a produção de marcas de moda, sem dúvida. Mas isso faz com que a particularidade de cada peça não seja tão forte, e tudo fica meio parecido. É claro que é possível simular uma manta mexicana através de um processo industrial, mas isso é feito numa escala tão grande que a identidade acaba se perdendo e vira só mais uma estampa ‘tipo mexicana’ que tanto vemos por aí. As minúcias de detalhes da produção artesanal e a identidade que o tecido tem é o que diferenciam as nossas peças de outras que possam até parecer parecidas visualmente. Não temos só uma coleção inspirada no México e América Central, temos pedacinhos desses locais e desses povos nas roupas que produzimos.

 

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Como essa busca pelos países da América Latina enriqueceu a sua pesquisa e o seu “banco de referências”?
Eu sempre fui louca por cores e por esse estilo étnico/boho, que as peças da coleção têm, mas tudo que eu tinha de referência era o que eu via em desfiles de grandes marcas e através das minhas pesquisas pela internet principalmente. Quando eu cheguei lá, tanto nessa viagem de agora, quanto da coleção anterior, que foi com países da América do Sul, eu me surpreendi com a facilidade de criar padrões e, principalmente, misturar cores que as artesãs têm, já que elas normalmente são pessoas muito humildes, com pouco ou nenhum estudo. E aí eu entendi que tudo isso vem justamente da simplicidade e das poucas e básicas referências que elas têm e que foram passadas de geração para geração — a maioria aprende a tecer com a mãe, que aprendeu com sua mãe e assim por diante. Elas se inspiram muito na natureza e também em símbolos e padrões Incas, Maias ou Astecas, dependendo da região; assim eu aprendi a mergulhar nos antepassados e na cultura de cada local e representar isso de forma simples — porém colorida  — nas peças. Afinal, é isso que essas artesãs incríveis fazem.

 

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E como se deu a tradução desses signos latinos em uma moda brasileira?

Embora a gente viva praticamente em uma ilha, acredito que por causa da nossa dimensão continental e também pela língua diferente, o Brasil é um país latino. Essa explosão e mistura de cores vivas e a relação com a natureza é algo natural para nós — ainda que aqui seja representado de forma diferente —,  por isso não foi tão difícil. A minha maior dificuldade é usar tecidos feitos em lã em um país quente como o nosso. Pela essência de customização que a marca tem, eu usei bases de tecidos simples, como algodão e sarja, e modelagem super básica. Trabalhei detalhes e enfeites com os tecidos que trouxe dos países, e deu super certo.

Somos o maior país da América Latina e consumimos muito pouco dessa cultura. Mesmo quando trata-se de música ou cinema, preferimos coisas que vêm dos Estados Unidos ou Europa do que dos nossos países vizinhos e irmãos. Então eu fico muito feliz de poder trazer um pouco disso para a moda brasileira.

 

 

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