Como os têxteis e o calçado vendem mais com menos

Vendas por trabalhador crescem mais de 50% em 10 anos. No calçado, cada funcionário faz mais 550 pares do que em 1994

Na indústria têxtil e do vestuário (ITV) há uma linha reta ascendente a indicar a trajetória da faturação por posto de trabalho nos últimos anos. “Desde 2009, a faturação por trabalhador aumentou 50%”, sublinha Braz Costa, diretor-geral do Citeve — Centro Tecnológico da Indústria Têxtil e do Vestuário, quando refere o salto dos 36.558 euros (2009) para os 54.744 euros em 2017.

Visto de outro forma, neste período de nove anos, o número de trabalhadores da fileira caiu 6,5%, mas o seu volume de negócios aumentou 40% e as exportações cresceram 50%, para um valor recorde de 5,053 mil milhões de euros como mostra Braz Costa numa apresentação sintética sobre a evolução recente do sector para explicar que estes números assentam em dois pilares: há mais valor/hora porque há inovação, design, serviço para vender em cada peça, e há, também, mais produtividade física induzida pela tecnologia, modernização de equipamento e ambiente organizacional das empresas.

Na verdade, este caminho começou a desenhar-se mais atrás, na viragem da década, com a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, quando a fileira foi assombrada pela deslocalização de investimentos e encomendas, falências, desemprego, e teve de reagir com eficiência e criação de valor. Se em 2017 a ITV lusa empregava 137 mil pessoas e faturava 7,5 mil milhões de euros, isto significa que conseguiu recuperar valores de vendas e exportações com metade dos trabalhadores do início da década, para se apresentar ao mundo como “um case study”, pela sua capacidade de resistência e adaptação.

Na indústria do calçado, a história conta-se da mesma forma, mas com outros números. Aqui, “mais do que a China, a sombra que pesava sobre nós e nos fez agir foi a ameaça da concorrência dos países do Leste, onde sabíamos haver mão de obra qualificada e barata. A competição só podia ser feita por via da excelência e do valor acrescentado”, recorda Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da APICCAPS, a associação dos industriais do calçado.

Em 1994, o sector empregava 59 mil pessoas, produzia 109 milhões de pares de sapatos e registava um volume de negócios de €1,6 mil milhões. Em 2017, a força de trabalho está 40% abaixo, os pares produzidos caíram mais de 20%, mas a faturação aumentou 25%, e o preço médio por par de sapatos na exportação triplicou, para atingir os 26,54 dólares (€23,07 ao câmbio atual), o segundo valor mais alto do mundo, atrás de Itália. O número de pares por trabalhador cresceu 30% ou 550 pares, para os 2400. Em vez das linhas de produção dedicadas a um único modelo de sapatos dias seguidos, as fábricas fazem hoje vários modelos em simultâneo, em pequenas séries. E o rácio volume de negócios/trabalhador mais do que duplicou desde 1994, para os €57 mil. Depois de 2009, o aumento deste indicador ronda os 50%.

 

Fonte: Expresso

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