Conexão fraca entre academia e mercado prejudica Brasil em ranking de inovação

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O caminho para que o Brasil tenha indicadores de inovação melhores passa por um estreitamento da relação entre a indústria e a academia e também pela criação de uma estratégia nacional que sobreviva a mudanças de governo.

O diagnóstico foi feito por Soumitra Dutta, professor da Cornell SC Johnson College of Business e um dos responsáveis pelo Índice Global de Inovação, que foi divulgado no dia 10 de julho.

Soumitra Dutta, da Cornell SC Johnson College of Business – Jales Valquer /Fotoarena/Folhapress

 

No ranking de 2018, o Brasil melhorou cinco posições, mas ainda ficou em 64° lugar entre 126 economias analisadas. Nem entre os latino-americanos o país é líder: ocupa a sexta posição, de um total de 18.

Para Dutta, alguns fatores explicam por que o país está no meio da tabela em inovação, e um deles é essa falta de comunicação entre o mercado e a universidade.

“É preciso ter uma ligação maior entre indústria e academia. Essa ligação é mais fraca do que eu acho que deveria ser”, afirma.

Segundo ele, a cultura dos professores no Brasil não é de trabalhar com empresas.

“Não há incentivo. Nas boas universidades americanas, quanto mais você trabalha com as empresas, mais isso é visto como uma coisa boa”, diz. “Acho que é uma área em que o Brasil pode melhorar.”

De acordo com ele, falta também ao país melhorar o ambiente para o desenvolvimento das startups. Ele critica, por exemplo, as dificuldades que existem hoje para o fechamento de uma empresa. “Essa questão não é desenhada do jeito certo. Se você tem um problema, você carrega a dívida com você pela sua vida”, afirma.

Outra consideração —e essa não é exclusiva sobre o o Brasil— é como as grandes empresas lidam com as novatas. Inovar, para as companhias maiores, é um desafio, porque pode envolver mudança de cultura e aprender como incluir a disrupção em seu modelo de negócios.

“Dito isso, as empresas maiores tentam mudar. Você vê isso muito no setor de tecnologia. Elas mudam ao comprar companhias menores ou ao criar ‘joint ventures’ para trocar conhecimento.”

Nesse caminho, há o risco de que, em vez de integrar essas empresas e crescer, as gigantes “matem o bebê” que trouxeram para dentro delas. Mas, novamente, não seria algo exclusivo do Brasil.

Deixar de identificar gargalos e aproveitar para inovar pode ser fatal a longo prazo, diz Dutta. Sem se beneficiar desse contexto, o Brasil vai ficar para trás. “Outras economias vão tirar vantagem. Sendo uma das maiores economias do mundo, o Brasil tem que competir no palco global.”

A criação de uma estratégia nacional de inovação poderia remediar o problema e colocar o país no rumo certo para se tornar uma potência inovadora, afirma. É o que aconteceu com a China, que, há 30 anos, segue uma política consistente estabelecida pelo Partido Comunista.

“Então as pessoas sabem mais ou menos o que esperar. Caso contrário, você vai ter mudanças a cada quatro ou seis anos.”

Isso porque a estratégia nacional não gira em torno de uma pessoa, e sim dos participantes principais da cadeia de inovação. “Se todos se unirem numa estratégia, isso continua no longo prazo.”

Uma coordenação nacional também reduz o desperdício de energia e a falta de foco. “No Brasil, há tantas instituições inovando. Cada uma está fazendo uma pequena coisa, não há um sentimento de visão nacional.”

Mas talvez isso tenha que ficar para depois das eleições, afirma. “Para o Brasil, acho que a situação é ainda mais complicada, por causa do contexto político. Você precisa de estabilidade”, diz.

“Isso vai criar as fundações. É a questão dos elos na corrente. Se você não tiver uma ligação forte, a inovação inteira não vai funcionar.”

De acordo com Dutta, para o resto do mundo, o obstáculo é a velocidade das mudanças.

“Acho que precisamos de um alto nível de mudança na sociedade neste momento. E eu não vejo essa mudança acontecendo rápido o suficiente”, afirma.

Para ele, as universidades estão tentando mudar, mas muitas vezes acabam fazendo as coisas do mesmo jeito de antes. As companhias, idem, de uma forma ainda mais lenta. Os governos, mais devagar ainda.

“Eu acho que é preciso reagir ao tipo de mudança que está acontecendo ao nosso redor. Esse é o maior obstáculo.”

 

Fonte: Danielle Brant/Folha de S. Paulo

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