Corpos plurais: novas representações na moda

 

 

A moda é uma forma de representação, um campo aberto para que qualquer pessoa encontre formas de simbolizar a própria subjetividade a partir do universo criado por marcas e desfiles. Muitas vezes, no entanto, o que a moda representa não é exatamente o sujeito que a consome – e sim as expectativas estéticas que o rodeiam. Da magreza exagerada à ausência de diversidade étnica, são muitos os obstáculos a serem superados em busca de uma aproximação entre a passarela e a realidade das ruas.

O preconceito na área começa a ser percebido na ausência de pesquisas que mostram a parcela de consumidores ativos que estão “fora do padrão”. Geni Rodio, que coordena cursos de moda e oficinas sobre processos criativos em São Paulo, argumenta. “Corpos acima do peso ou com algum tipo de deficiência, por exemplo, não encontram no cenário do varejo de moda notoriedade alguma, apesar de representarem um segmento de mercado seguramente importante. Infelizmente, o mercado não dispõe de números que possam parametrizar este nicho.”

 

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Chantelle Brown-Young

 

Há também as escolhas que muitas marcas fazem em relação às modelos que vestirão suas roupas em campanhas e desfiles. De acordo com o Censo, em 2010 mais de 50% da população brasileira era composta por pessoas negras e pardas. Apesar disso, em 2009, os desfiles brasileiros contaram com apenas 8 modelos negros em um conjunto de 344 pessoas. Isso fez com que na época o Ministério da Previdência Social estabelecesse uma cota: pelo menos 10% das pessoas que desfilam devem ser negras ou possuir descendência indígena. Naquele ano, os dados correspondiam a 2,3%.

Geni ilustra essa desigualdade racial presente na moda: “Em relação à cor da pele, as pessoas brancas ainda representam a maioria, seguidas por negros em uma escala bem menor, dependendo de onde a marca do produto está localizada em termos geográficos. Infelizmente, no universo da moda infantil, essa prática é ainda mais acentuada, sendo as crianças brancas e de preferência louras as que mais têm espaço nos catálogos de produtos, apesar de toda diversidade do povo brasileiro”.

Apesar disso, alguns exemplos pelo mundo começam a mostrar possibilidades de mudança, dando espaço a uma moda cada vez mais plural. No ano passado, a marca estadunidense American Apparel apresentou uma modelo de 62 anos de lingerie em uma de suas campanhas. A modelo Chantelle Brown-Young, portadora de vitiligo, vem há alguns meses conquistando espaço e se tornando a primeira porta-voz da doença no circuito fashion. Os desfiles da NYFW desse ano trouxeram modelos em cadeiras de roda e estabeleceram um marco importante: Jamie Brewer, atriz conhecida por sua atuação no seriado American Horror Story, foi a primeira pessoa com Síndrome de Down a desfilar na semana de moda nova-iorquina.

 

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Campanha da American Apparel

 

Em um país plural como o Brasil, a perpetuação de um ideal de beleza desconectado de grande parte da população talvez seja um dos motivos pelos quais a moda daqui ainda enfrente tantos obstáculos. “Quando faço palestras, procuro mostrar a diversidade do Brasil sob todos os aspectos — arte, cultura, dança, herança genética, desigualdade econômica, cor e estilo de vida — afinal, somente com essa conscientização e valorização das nossas diferenças é que o Brasil poderá, a médio prazo, formar o verdadeiro estilo contemporâneo e a identidade da moda brasileira para se tornar uma referência competitiva no mundo globalizado”, destaca a professora.

 

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