Ela ganhou os Estados Unidos fabricando calçados “ecológicos”

Filha de empreendedor, Sara Irvani é inovadora e quer atingir público jovem preocupado com o meio ambiente com seus produtos

As vidas de Bahman Irvani e sua filha, Sara Irvani, seguiram a mesma trajetória. Ambos nasceram para serem empreendedores de sucesso e trabalharam, quando crianças, nas empresas de calçados de seus pais. Frequentaram internatos na Inglaterra e estudaram finanças em Cambridge. Os dois também foram prepararam para assumir os negócios da família.

Para Bahman não foi possível suceder seu pai. A Revolução Iraniana de 1979 acabou com a empresa de calçados da família – uma multinacional com 60 fábricas – apenas um ano e meio depois que ele começou a trabalhar lá. Já a sucessão de Sara tem tudo para ser bem-sucedida. Em 2017, ela se tornou CEO da Okabashi, fabricante de chinelos e sandálias em plástico, fundada por Bahman em 1984. E menos de um ano depois, ela já anunciou uma nova linha de calçados ecológicos sob o nome de Third Oak.

Okabashi é uma palavra japonesa associada ao bem-estar. A fábrica fica em Buford, no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, conhecida como a “cidade do couro” por ter já sido casa de diversas empresas de calçado. A instalação ocupa mais de 9 mil metros quadrados e é cercada por árvores. Na década de 1980, parecia um exagero para um negócio inicial, mas hoje ela está toda ocupada, com 200 funcionários que produzem 1,2 milhão de pares de chinelos e sandálias por ano.

Além da novata Third Oak (cujo par custa cerca entre 30 e 40 dólares) que é vendida online e em lojas de departamento, há ainda a Oka-B, linha voltada para boutiques e spas (com preço entre 30 e 60 dólares) e a Okabashi, encontrada em drogarias e lojas especializadas (20 dóláres).

Por ser uma marca voltada para o conforto, o perfil tradicional do consumidor da Okabashi é de pessoas que prezam pelo conforto dos pés e está na faixa etária acima dos 40 anos. Para atrair os jovens, Sara decidiu ampliar na Third Oak uma característica que todas as linhas da empresa têm, mas nunca foi vendida como diferencial: o fato de serem ecofriendly.

 

Uma revolução no caminho e um renascimento em família

No Irã, a família Irvani era considerada  especialista em calçados. Mohamad Irvani, pai de Bahman, fundou a Melli Shoe Company em 1958 e transformou-a em uma das maiores fabricantes de calçados do Oriente Médio, empregando 10.000 pessoas e produzindo botas, tênis e calçados infantis. Seu filho, Bahman, ajudou nos negócios até os 13 anos, quando se mudou para a Inglaterra para um colégio interno. Depois de estudar economia em Cambridge,

Bahman retornou ao Irã para se juntar ao negócio da família em tempo integral. Isso em 1977.

Dois anos depois, a monarquia que governava o Irã caiu e o novo governo teocrático estatizou a empresa. A família Irvani fugiu para a Inglaterra, já que tinha perdido quase tudo o que tinha. De lá, foi para os Estados Unidos e, no novo país, decidiu começar de novo, atraída pelo clima pró-negócios da Era Reagan.

Com empréstimos bancários e o restinho de dinheiro da família, Bahman adquiriu terrenos em Buford e montou sua fábrica, com tecnologia e processos de empresas alemãs, italianas e japonesas que tinham parceria com a Melli.

Nos Estados Unidos da época, as sandálias de plástico eram baratas e ruins, e não levavam em conta o conforto e estética. Foi justamente nessas características que o empresário decidiu apostar, fazendo versões plásticas de sandálias japonesas de couro, incorporando contas de reflexologia para massagear e estimular os pés.

Ficou mais cara que a dos concorrentes, mas, ainda assim, não oferecia margem suficiente para serem vendidas nas grandes cadeias varejistas de calçados. Bahman então mirou drogarias e supermercados, como a Walgreens e a CVS.

 

Muito mais verde

Sara Irvani é fluente em inglês, alemão, francês e farsi. Sua residência oficial é em Nova York, onde passa os finais de semana com o marido, que trabalha no mercado financeiro. Toda segunda-feira, ela acorda às 4h30 e voa para Atlanta, aeroporto mais próximo da fábrica da família, e volta para casa na quinta-feira.

O sacrifício tem um motivo. Ela quer aumentar as vendas da empresa em 25% ao ano. Para isso, mudou a forma de distribuição a fim de minimizar o risco de estoque do varejo – passou a entregar diretamente às lojas. Também está tentando avançar no mercado internacional e preparando novo plano de marketing, bem como revitalizando a marca e o site da empresa.

A Third Oak é a aposta no mercado mais requintado. Criadas por um designer, são mais finas e com tiras em tons metálicos. Com isso, ela espera atingir um público na faixa dos 20 anos de idade que privilegia beleza e tem preocupação ambiental. Segundo ela, os produtos são feitos para durar e a empresa se compromete a reciclar todos os calçados velhos que os consumidores enviarem de volta. Em troca, oferece 15% de desconto em uma próxima compra. Ainda que apenas 25% das sandálias sejam retornadas, em 2018 eles devem reciclar 45 toneladas delas. O resíduo é reutilizado nos novos calçados. Cada nova sandália tem 25% de material reciclado.

Além disso, a Third Oak deu um passo além na preocupação ecológica e aumentou em sua composição os materiais à base de plantas, usando um plastificante de soja, aditivo que torna as sandálias mais flexíveis. O envio delas para lojas e clientes é feito em sacolas de algodão reutilizáveis. A partir de agora, a ideia é que todas as melhorias ecológicas testadas e bem-sucedidas na Third Oak sejam implementadas também nas outras linhas da empresa.

Toda a cadeia de suprimentos da Okabashi é formada por fornecedores locais e com baixa emissão de carbono. A família Irvani aposta que essas medidas atrairão jovens consumidores – o que deve garantir a sustentabilidade da empresa por mais algumas gerações.

 

Fonte: Pequenas Empresas & Grandes Negócios

VER TODOS OS POSTS

POSTS RELACIONADOS