“Entregar sustentabilidade é uma licença para se fazer negócios no século XXI”, diz Constance Chalchat, do BNP Paribas

Em 2017, o banco contribuiu com 10% da meta do Grupo para projetos de energia renovável. Ao longo de 2018, outros três projetos de energia limpa e eficiência energética foram viabilizados com o apoio da instituição financeira no Brasil

 

A executiva Constance Chalchat, chefe de relações institucionais e corporativas do BNP Paribas, marcou a 2ª edição brasileira do “Sustainable Future Forum”. O evento reuniu clientes, colaboradores e parceiros do BNP Paribas para uma manhã de reflexão e discussão sobre os avanços da sustentabilidade nas empresas e como as instituições financeiras podem auxiliar nessa jornada por meio de soluções de finanças sustentáveis.

Em 2017, o banco contribuiu com 10% da meta do Grupo para projetos de energia renovável (1,2 bilhões de euros em financiamentos, de um total de 12,22 bilhões de euros). Ao longo de 2018, outros três projetos de energia limpa e eficiência energética foram viabilizados com o apoio da instituição financeira no Brasil. A DINHEIRO conversou com Chalchat com exclusividade para saber os projetos sustentáveis financiados no Brasil e como foi a trajetória do BNP Paribas para se tornar referência em finanças sustentáveis.

Você disse que o BNP já investiu € 1,2 bi em projetos de sustentabilidade no Brasil. Quais são esses projetos e quais problemas eles visam solucionar?

Em 2017, o Brasil contribuiu com 10% do compromisso do Grupo BNP Paribas com as energias renováveis (1,2 bilhões de euros dos 12,2 bilhões de euros em nível mundial). Esse montante é composto por operações de financiamento de projetos dedicados a ativos de energia renovável, financiamento da aquisição de ativos de energia renovável de empresas e ao financiamento de empresas dedicadas principalmente a essas fontes energéticas.

Em 2018, o BNP Paribas Brasil já participou de uma série de operações financeiras bem-sucedidas e com impacto positivo: fomos o coordenador líder da emissão de debêntures, no total de R$ 305 milhões, para financiar o projeto Pirapora 2, uma usina solar fotovoltaica com capacidade para 90MW. O BNP também atou como assessor para o financiamento do Banco do Nordeste, por 20 anos, para o projeto Fotovoltaico Scatec/Statoil Apodi. Concluímos a primeira transação de eficiência energética com a Signify (antiga Philips Lightning) no valor de R 18 milhões, dedicada à instalação de iluminação LED.

Também lançamos o primeiro COE (Certificado de Operações Estruturadas) com recurso de impacto social. Para cada R$ 1.000 arrecadado, R$ 1 é doado (0,10% do total nocional) para o GRAACC, organização na sem fins lucrativos dedicada ao tratamento do câncer e referência na América Latina.

Qual é a visão da BNP sobre o financiamento sustentável?

Entregar sustentabilidade é uma licença para se fazer negócios no século XXI. A inovação tecnológica acabará por criar soluções que são boas não apenas para a sustentabilidade, mas também para os negócios. É por isso que na COP21, pela primeira vez na história, governos, empresas e investidores alinharam-se de forma decisiva para um futuro melhor e para uma economia mais saudável.

Desde então, temos visto um interesse crescente de nossos clientes em todo o mundo pelo financiamento sustentável e ferramentas de investimento responsáveis. Os investidores terão um papel muito importante na sustentabilidade – todos os dias um novo investidor institucional faz um anúncio sobre metas de sustentabilidade – eles decidem quais porcentagens de sua carteira irão para energia renovável, ou até para abordar a diversidade de gênero.

Por outro lado, nossos clientes corporativos estão lidando com as mudanças nas expectativas dos consumidores. As pessoas querem alimentos, roupas e produtos de limpeza de origem sustentável para suas casas. Essa pode ser uma excelente oportunidade para nos mantermos ágeis e relevantes, ao mesmo tempo em que atendemos às solicitações dos investidores.

Quando que o financiamento sustentável se tornou importante para BNP?

Fomos um dos primeiros bancos a tomar decisões arrojadas e a implementar uma estrutura de riscos ambientais, sociais e de governança (ESG) rígida, fundamentada em políticas setoriais. Em linha com a evolução de nossos clientes, gradualmente passamos para uma estratégia mais voltada para negócios e focada em clientes. Hoje, somos reconhecidos como um líder em financiamento de impacto positivo e em 2018 fomos eleitos o “Melhor Banco de Financiamento Sustentável no Mundo”, pela Euromoney.

Esta evolução se traduz em um comprometimento muito substancial: o BNP Paribas tem investido aproximadamente € 155 bilhões para o financiamento da transição energética e a concretização das Metas de Desenvolvimento das Nações Unidas.

Considerando que o financiamento sustentável se tornou um fator importante no BNP, algum projeto mudou por causa disso? Isso tem afetado a forma como o BNP faz negócios?

Revisamos as relações de nossos clientes com uma rígida estrutura de gerenciamento de risco (ESG). Queremos servir e acompanhar aqueles que estão dispostos a evoluir e transformar gradualmente seu modelo de negócios em um modelo mais sustentável.

Também tomamos medidas adicionais em setores específicos que estão impactando nosso planeta negativamente. Como a Organização Mundial de Saúde pediu a ajuda da comunidade internacional em relação aos efeitos do tabaco em termos de saúde, deixamos de financiar e investir em atividades relacionadas aos fabricantes de produtos de tabaco, bem como produtores, atacadistas e comerciantes, cuja receita se origina principalmente do tabaco.

Além disso, tomamos medidas no setor de energia para acelerar o apoio oferecido para a transição energética. Paramos de fazer negócios com empresas cuja atividade principal é a exploração, produção, distribuição, comercialização ou venda de petróleo e gás do xisto e/ou óleo de areias betuminosas. Também cessamos o financiamento de projetos que estão principalmente envolvidos no transporte ou exportação desses produtos. Por fim, nos comprometemos a não financiar mais nenhum projeto de exploração ou produção de petróleo ou gás na região do Ártico.

O que foi necessário para o BNP Paribas conseguir a certificação para o Green Climate Fund? O que vai mudar na próxima estratégia por causa disto?

Os bancos são os intermediários naturais entre pools de capital intencional e projetos impactantes. Estamos, portanto, trabalhando incansavelmente para desenvolver soluções inovadoras entre estados, organizações, investidores e empresas para acelerar suas transições.

Um exemplo disso é a estrutura de financiamento combinada que desenvolvemos com a ONU. Uma das primeiras iniciativas construídas por este acordo foi o lançamento, no início deste ano, do Mecanismo de Financiamento de Paisagens Tropicais (Tropical Landscapes Finance Facility – TLFF). A TLFF pretende criar projetos que transformem vidas e ambientes, e securitizar os empréstimos do projeto em títulos.

Essa transação inovadora estruturada e lançada em março de 2018 foi seguida, em junho, pelo financiamento do SIFF (Sustainable India Finance Facility – Crédito Financeiro Sustentável para a Índia) na Índia. O primeiro projeto a beneficiar-se deste acordo é o Zero Budget Natural Farming (ZBNF – Orçamento Zero para Agricultura Natural) com o objetivo de trazer financiamento de longo prazo para projetos e empresas que estimulem o crescimento verde, reduzam as emissões de gases de efeito estufa e melhorem os meios de subsistência das comunidades marginalizadas.

No último dia 20 de outubro, conseguimos outro grande marco de financiamento combinado obtendo nosso credenciamento para o Green Climate Fund (GCF). Somos um dos poucos bancos comerciais credenciados no mundo. Vemos oportunidades fantásticas de trabalhar com Estados, organizações de desenvolvimento e entidades privada no Brasil para acelerar a luta para manter o aquecimento global abaixo de 2°C.

 

Fonte: ISTOÉ Dinheiro

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