Estética e legado de Lygia Clark

No metal, a leveza do diálogo entre obra de arte e público. Nos fios de um carretel, a densa reflexão sobre a cultura brasileira e seu legado antropofágico.

O trânsito entre elementos contrastantes permeou todo o legado de Lygia Clark. Nascida em Belo Horizonte, a auto-entitulada “não-artista” brincou com o híbrido durante toda sua vida e transbordou os limites que separam o plástico do performático.

Hoje seu trabalho é base de inspiração real para a produção criativa do país  incluindo a moda.

 

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Sua produção passa a ganhar corpo durante os 1950, e ao fim da década Lygia participa do Manifesto Neoconcreto. Ao lado de artistas como Ferreira Gullar, ela busca desvincular a arte do objeto e a proposta de inserir o público enquanto criador.

Surgem, então, Bichos, esculturas interativas feitas de metal e dobradiças. A partir de um material frio e pouco convidativo, a artista promove um encontro entre a estética geométrica do construtivismo e a pluralidade da fauna local. O público fica livre para interagir com o “animal”, dando a forma que deseja à obra.

Ao final dos anos 1960, a produção cultural brasileira voltava os olhos à onda modernista que mexeu o país na Semana de Arte Moderna de 1922. Lygia Clark, que sempre fora uma figura introspectiva, acha uma forma única de se posicionar nesse cenário.

 

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Oswald de Andrade décadas antes propõe a antropofagia – o processo de engolir o outro – como alternativa à arte brasileira até então vítima da colonização europeia. Lygia encontra no corpo uma maneira de simbolizar esse processo. Baba Antropofágica, obra do início dos anos 70, traz nos fios de um carretel a ideia de fluido corporal compartilhado.

Tirar da boca o material representa compartilhar a experiência artística. As fronteiras entre participação, performance e matéria se borram. Fernando Stratico, professor da Universidade Estadual de Londrina, retoma: “A perda da substância nos remete à perda da autoria da obra.”

 

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Lygia Clark sempre esteve ciente da importância de fazer da arte algo acessível no Brasil. Apesar da produção da artista ter sido interrompida por sua morte em 1988, sua intenção política continua inspirando.

A coleção de Raquel Davidowicz para a UMA em 2013 não só se apropriou da estética de Lygia, mas selou um compromisso ético: todo o dinheiro arrecadado com as peças foi doado a comunidades carentes do Rio de Janeiro. Na época do desfile, sua neta Alessandra Clark declarou: “Eu sinto que é como se ela não tivesse morrido e o mundo ainda estivesse correndo atrás para assimilar e absorver tudo o que ela fez”.

 

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