Criei a expressão “Tripé da Sustentabilidade” há 25 anos. Aqui está o motivo pelo qual é hora de repensá-la.

Com que frequência os conceitos de gestão são submetidos a reconsiderações pelas pessoas que os inventaram? É difícil pensar em um único caso.

Se um produto industrial como um carro apresenta um defeito, o fabricante faz um recall, testa o produto e, se necessário, o reequipa. Para combater descuidos dos fabricantes, os governos realizam testes periódicos de segurança no trânsito. Os conceitos de gestão, em contraste, operam em ambientes mal regulamentados onde os defeitos muitas vezes são varridos para baixo dos tapetes das salas de diretoria ou do corpo docente. No entanto, sistemas de gestão precários podem comprometer vidas no ar, no mar, nas estradas ou nos hospitais. Eles também podem colocar empresas e setores inteiros em risco.

Com isso em mente, estou me voluntariando para realizar um “recall” do conceito de gestão: visto que o ano de 2019 marca o 25º aniversário do “tripé da sustentabilidade”, uma expressão que criei em 1994, proponho um recall estratégico para fazer alguns ajustes.

Para quem não está familiarizado, o tripé da sustentabilidade é uma estrutura de sustentabilidade que examina o impacto social, ambiental e econômico de uma empresa. Então, por que reconsiderá-lo agora? Afinal, desde a década de 1990, o setor de sustentabilidade tem crescido rapidamente, embora em cerca de US$ 1 bilhão em receitas anuais globalmente ele não seja nenhum gigante. Ainda assim, pesquisas de mercado sugerem que os mercados futuros para seus produtos e serviços podem ser enormes – com a previsão dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU de gerar oportunidades de mercado superiores a US$ 12 trilhões por ano até 2030 (e essa é considerada uma estimativa conservadora).

Mas o sucesso ou o fracasso das metas de sustentabilidade não pode ser medido apenas em termos de lucro e prejuízo. Ele também deve ser medido em termos do bem-estar de bilhões de pessoas e da saúde do nosso planeta, e o histórico do setor de sustentabilidade em mudar a situação perceptivelmente quanto a essas metas tem sido decididamente em parte bom e em parte ruim. Embora tenha havido sucessos, nosso clima, recursos hídricos, oceanos, florestas, solos e biodiversidade estão cada vez mais ameaçados. É hora de intensificar os esforços ou de sair do caminho.

Para isso, se fizermos uma engenharia reversa da pauta de sustentabilidade de hoje, é claro que um elemento poderoso do seu código genético tem sido o tripé da sustentabilidade (também conhecido em inglês como TBL ou 3PL).

Uma década atrás, a publicação The Economist já estava sinalizando que a expressão havia se tornado parte do vocabulário comercial. Como a revista explicou, a abordagem “visa avaliar o desempenho financeiro, social e ambiental de uma empresa durante um período de tempo. Somente uma empresa que produz um tripé da sustentabilidade está levando em conta o custo total envolvido em fazer negócios.”

Bem, sim… mas a ideia original era ainda mais ampla, incentivando as empresas a monitorar e gerenciar o valor econômico (não apenas financeiro), social e ambiental agregado – ou destruído. Essa ideia inspirou plataformas como a Iniciativa de Divulgação Global (GRI) e os Índices de Sustentabilidade da Dow Jones (DJSI), influenciando a contabilidade corporativa, o envolvimento das partes interessadas e, cada vez mais, a estratégia. Mas o tripé da sustentabilidade não foi projetado para ser apenas uma ferramenta de contabilidade. Ele deveria provocar um pensamento mais profundo sobre o capitalismo e seu futuro, mas muitos dos primeiros adeptos entenderam o conceito como uma tentativa de lidar, ao mesmo tempo, com fatores ou situações conflitantes, adotando uma mentalidade do tipo escolha entre opções antagônicas.

 

Mudando o Sistema
O conceito surgiu exatamente 500 anos depois que Luca Paccioli publicou o primeiro tratado do mundo sobre o método das partidas dobradas, a base do pensamento de fator único ou balanço final único. Em retrospectiva, é claro que o surgimento do tripé da sustentabilidade provou ser um ponto de ramificação. Ele foi rapidamente seguido por Fatores Duplos e Quádruplos, Retorno Social do Investimento (SROI), múltiplos modelos de capital, Contabilidade de Custos Totais, ESG (uma estrutura concentrando investidores e analistas financeiros em fatores Ambientais, Sociais e de Governança), a abordagem de Lucro e Prejuízo Ambiental desenvolvida por Trucost, Puma, e Kering, o Efeito Líquido Positivo, Valor Combinado e Compartilhado, Divulgação Integrada, Investimento de Impacto e, mais recentemente, a estrutura de Impacto Social Total do Boston Consulting Group (BCG). E isso antes mesmo de entrarmos em conceitos de próxima geração como Produtividade de Carbono, Economia de Compartilhamento e Circular, ou Biomimética.

Essa experimentação é claramente vital – e normalmente desencadeia uma proliferação de soluções potenciais. Mas a desnorteante gama de opções agora oferecidas pode proporcionar às empresas um álibi para a inação. Pior ainda, deixamos de avaliar, visivelmente, o progresso dessas opções com base no impacto e no desempenho real delas.

Junto com suas variantes posteriores, o conceito de tripé da sustentabilidade foi apropriado e diluído por contadores e consultores de relatórios. Milhares de relatórios de tripé da sustentabilidade agora são produzidos anualmente, embora esteja longe de ser claro que os dados resultantes estão sendo agregados e analisados de modos que realmente ajudam os tomadores de decisão e os formuladores de políticas a monitorar, entender e gerenciar os efeitos sistêmicos da atividade humana.

Fundamentalmente, temos um problema cultural congenitamente integrado nas empresas, finanças e mercados. Enquanto os CEOs, Diretores Financeiros e outros líderes corporativos movem céus e terras para garantir que eles alcancem suas metas de lucro, o mesmo raramente acontece com suas metas em termos de pessoas e do nosso planeta. Claramente, o tripé da sustentabilidade não conseguiu enterrar o paradigma do fator único.

 

Primeiro Recall da Sustentabilidade
Criticamente, também, desde o início o objetivo declarado do tripé da sustentabilidade era a mudança de sistema – buscar a transformação do capitalismo. Ele nunca deveria ser apenas um sistema de contabilidade. Ele foi originalmente concebido como um código genético, uma hélice tríplice de mudança para o capitalismo de amanhã, com foco em mudança revolucionária, inovação, crescimento assimétrico (com os setores insustentáveis ativamente deixados de lado) e com a ampliação de soluções de mercado de próxima geração.

Para ser justo, algumas empresas realmente se movimentaram nessa direção, entre elas a dinamarquesa Novo Nordisk (que se reconstituiu com base no tripé da sustentabilidade em 2004), a anglo-holandesa Unilever e a alemã Covestro. O recém-aposentado CEO da última empresa citada, Patrick Thomas, salientou que o uso adequado do tripé da sustentabilidade envolve, no mínimo, o progresso em duas dimensões, enquanto a terceira permanece não afetada. É hora dessa interpretação se tornar a configuração padrão não apenas para um punhado de empresas líderes, mas para todos os líderes empresariais.

Eu vejo um brilhante raio de esperança vindo do mundo de alta energia das Empresas B (B significa ‘benéficas’), que utilizam o poder dos negócios para resolver problemas sociais e ambientais. Há muita força aí; cerca de 2500 empresas em todo o mundo já têm a certificação B Corporation. Todas estão configuradas em torno do tripé da sustentabilidade – dedicadas a ser não apenas “a melhor do mundo”, mas “a melhor para o mundo”. Grandes empresas como a brasileira Natura e a empresa da Danone na América do Norte já são Empresas B, sendo que outras empresas multinacionais já estão pensando em como seguir o exemplo delas.

Para realmente gerar uma mudança perceptível, no entanto, precisamos de uma nova onda de inovação e implantação do tripé da sustentabilidade. Mas embora a minha empresa, a Volans, faça consultoria com empresas sobre implantação do tripé da sustentabilidade, francamente, não tenho certeza de que isso será suficiente. Na verdade, nenhuma dessas estruturas de sustentabilidade será suficiente se elas não tiverem o ritmo e a escala adequados – a intenção radical necessária para impedir que todos nós ultrapassemos os limites do nosso planeta.

Daí a necessidade de um recall ou reconsideração. Espero que daqui a 25 anos possamos olhar para trás e apontar para este como o momento em que começamos a trabalhar rumo a uma hélice tríplice para a criação de valor, um código genético para o capitalismo de amanhã, incentivando a regeneração de nossas economias, sociedades e biosfera.

 

Traduzido de: HBR

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