Hélio Oiticica: corpo, movimento e arte

Trinta e cinco anos nos separam da morte do artista Hélio Oiticica, que faleceu em março de 1980. Fortemente interessado na cultura brasileira que acontecia do lado de fora dos grandes museus, o carioca inovou o diálogo entre corpo e arte. Hélio não excluía dessa relação uma forte contestação ao meio artístico: “A descoberta do corpo me veio como consequência da desintegração das velhas formas de manifestação artística”.

Enquanto Caetano e Gil lideravam a produção sonora do movimento tropicalista, Hélio buscou nas artes plásticas a construção do cenário daquele momento social. Tida como uma das primeiras instalações do mundo, Tropicália foi exibida em 1960 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e acabou batizando toda a vanguarda que levaria o mesmo nome. A proposta de uma obra penetrável já revelava um questionamento latente em sua obra: afinal, qual o papel do espectador?

 

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Tropicália, Hélio Oiticica, 1960

 

Essa é a chave para a criação dos Parangolés, conjunto de obras que surgem em meados dos anos 1960. Caracterizá-los como capas ou peças de roupas seria negar a essência questionadora que carregavam: presos entre o status de performance e obra, os parangolés somente completavam seu destino artístico no movimento do corpo.

Como lembra o historiador Jardel Dias Cavalcanti em seu texto publicado no Digestivo Cultural, “o que o Parangolé nos propõe é o deslocamento da experiência do campo intelectual racional para o da proposição criativa vivencial. E isto só é possível com a radicalização da vivência através da manipulação, do movimento e da utilização plurisensorial da ‘obra’. Parangolé não é uma ‘obra’, mas o ‘lugar’ no qual a experiência artística se funda.”

Hélio não pretendia somente dar vazão ao movimento do corpo, mas também à agitação da cidade e os lugares em que a arte podia ou não ocupar. A crítica de arte Paula Ramos ressalta: “Na arte contemporânea, como não poderia deixar de ser, a cidade continua sendo um personagem da arte, só que ela deixa de ser somente representada e se torna um campo aberto para as propostas de seu tempo”.

 

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Hélio Oiticica

 

Apesar de não propor qualquer transformação direta no âmbito da moda, ao vincular a experiência artística ao movimento que alguém estabelece com suas vestimentas, Hélio Oiticica colocava em foco as relações que o corpo traça no espaço urbano e os códigos sociais que ele carrega. Se “museu é o mundo”, como ele mesmo colocava, a banalidade de peças de roupa pode então ser compreendida como espaço de ressignificação poética nesse grande espaço artístico global.

Quase meio século depois e ainda vemos fortes influências de Oiticica nos mais diversos campos criativos. No campo da moda, como não poderia deixar de ser, sua filosofia é constantemente redescoberta. Entre as principais homenagens ao artista, destacam-se as produções das estilistas Fernanda Yamamoto e Goya Lopes.

 

Fernanda Yamamoto

Peça de Fernanda Yamamoto inspirada na obra “Metaesquema”

 

Interessante é observar que a busca pela obra do artista raramente é simplesmente estética: para além do universo imagético que Oiticica inventara, as criações levam também sua ideologia política. Na época em que sua coleção foi lançada, Yamamoto não deixou de ressaltar o papel social da moda em entrevista, se aproximando do questionamento ativista do carioca: “A moda também pode exercer esse papel com um valor enorme. Um impulso à cultura local, a riqueza dos trabalhos manuais. É uma maneira de aproximar e valorizar esses universos e as pessoas que deles fazem parte”. Já Goya, ao pensar sobre sua pesquisa, não esqueceu da essência vanguardista do carioca: “Hélio mostrou que precisamos sempre experimentar”.

 

 

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