Levando nas costas uma filosofia

Que história é contada por trás de um produto? O que carrega cada item que a gente usa, por onde passa o que antes foi matéria-prima até chegar às nossas mãos?

Desconstruir o modelo hegemônico de consumo e seus impactos raramente passa pela nossa cabeça – a reflexão logo é substituída por uma nova vitrine, um site de compras que acabamos de descobrir. Na contra-mão, algumas alternativas surgem no horizonte. Conversamos com Adriana Tubino, que ao lado da sócia e amiga Itiana Pasetti, criou a Vuelo. “O prazer da sustentabilidade está no seu desafio”, ela reflete.

Criados a partir de câmaras de pneu e tecido de guarda-chuvas, os seus produtos representam um entre os diversos episódios que formam a narrativa de produção da marca. E o questionamento pessoal das criadoras a respeito da problemática do descarte, como conta Adriana, foi fundamental no processo todo. “A Vuelo surgiu justamente porque a gente não conseguia e nem queria se encaixar nesse modelo do mercado da moda atual. Então passamos a olhar para as coisas que nos incomodavam, e uma delas era o lixo. Colocar algo ‘fora’ na prática não existe, então pra onde vai tudo isso?”. Foi preciso ver de perto essa realidade: “Esse ‘fora’ é um lugar nada agradável, e isso nos perturbou muito. Se a nossa ideia era dar início a algo dentro da moda, como fazer diferente?”.

 

 

O prazer da sustentabilidade está no seu desafio

 

 

Criar um produto, no entanto, também envolve entender que, em algum momento, ele será descartado. Em vez de pensar a partir da linha reta compra-consumo-lixo, a Vuelo busca produzir um ciclo de relações. O primeiro passo foi estabelecer uma cadeia de contatos que pudesse garantir a matéria-prima, contando com parceiros como borracharias e centros de descarte, tudo através de mão-de-obra social. Com o produto em mãos, surgiu a pergunta: como evitar que isso um dia também seja descartado? Além de prezar pela durabilidade dos materiais, Adriana ressalta a importância de vincular o consumidor em um compromisso ético. “A gente sempre achou que quem compraria nossos itens seriam pessoas que também se identificam com esse estilo de vida. A marca ainda é jovem, mas a gente sugere que, ao fim da vida útil do produto, ele nos seja devolvido pra que então possa virar outra coisa, ser reaproveitado.”

 

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Com um ano e meio de vida, a Vuelo já enfrenta alguns obstáculos. “Formar a rede de produção foi difícil, assim como mantê-la também é: às vezes uma borracharia deixa de funcionar ou um centro de descarte fecha. Costurar em borracha e com tecidos de guarda-chuva também foi um desafio, até porque ninguém ensina a manusear esses materiais”. Mesmo diante de tantos desafios, Adriana ressalta o prazer que todo o processo traz: “É um aprendizado constante, que vai da técnica ao envolvimento diário com pessoas”.

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