Luciana Duarte: matéria-prima, pesquisa e ética

Já falamos aqui sobre os desafios que a moda ética enfrenta hoje no Brasil. Como lidar com a sustentabilidade em um país onde a informação sobre o assunto é escassa – e o consumo desenfreado é o lugar-comum da moda?

Levamos o assunto adiante e estendemos o papo com Luciana Duarte, que além de ser criadora do site Moda Ética, é também pesquisadora do assunto e reflete: “Ninguém quer uma moda que restringe”.

 

Um artigo no The Guardian diz que a moda ética, ou verde, sofre por ser taxada como chata, e que um de seus desafios deve mudar essa ideia para a de uma moda durável e de preço acessível. E aqui no Brasil, quais são os desafios dessa moda?

É muito dificil fazer moda verde no Brasil, cumprir os requisitos. Hoje a sustentabilidade tem 5 pilares: econômico, meio-ambiente, social, cultural/espacial e territorial. É muito dificil cumprir a sustentabilidade social. É dificil competir por causa da mão de obra: a moda é sasonal, isso muitas vezes impede que as costureiras, por exemplo, tenham a carteira assinada.

 

A moda sustentável no Brasil é acessível?

É muito relativo. Eu por exemplo adoro roupa de cânhamo, e recentemente comprei um macaquinho por 30 reais. Acho acessivel. Mas não ta na praça, na propaganda, não é acessível nesse sentido.

 

A indústria da moda é uma das que mais gera resíduos. É possível fazer moda sem resíduos – ou com menos? Como?

Pra cada um quilo de tecido a indústria gasta cerca de 150-200 litros de água. Ela é reutilizada, mas em pequenas empresas muitas vezes não. Então essas empresas não conseguem competir com os tecidos da china. O consumo de água pode ser diminuído – mas pode diminuir a qualidade da roupa.

 

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Dá pra ser 100% sustentável?

Não tem como ser 100% sustentável. Você sempre vai esbarrar nas dificuldades. É necessário saber fazer escolhas: o que é a sua prioridade? Ser vegano, ter alguma matéria prima específica, focar na produção? A partir daí você trabalha com o que tem.

 

Como você acha que a indústria brasileira de moda sustentável está em relação às dos outros países?

O que a gente tem feito não é muito diferente da Holanda, França, Inglaterra. A receita de bolo é simples. Mas tenho a impressão que não temos tanta visibilidade. Porque são designers de moda recentes, mais jovens, que fazem isso. Algumas marcas consolidadas, como a Hering, já trabalharam nisso. Mas ela lançou uma coleção e não fez mais, porque era moda na época apenas.

 

Nós somos um país muito rico em matérias-primas. Você acha que sabemos como usá-las?

Tem um contraponto: temos biodiversidade mas nem sempre sabemos como trabalhar com ela. Por exemplo, algodão orgânico colorido é ruim, é duro, então ninguém usa. Temos diversidade, mas conseguir utilizar a matéria-prima é difícil por causa do acesso e tempo de produção. As empresas não fazem o cálculo do trabalho. Querem usar o algodão amaciado com manteiga de cupuaçu, por exemplo, mas aí veem que é mais caro – algumas chegam a ser duas, dez vezes mais. O tecido é o que dá o principal preço. Se ele custa duas vezes mais, não tem como competir.

 

E o consumidor brasileiro já sabe consumir a moda verde?

Pra consumir sustentável deve ter informação. Como o consumidor brasileiro vai ter a informação pra identificar se o sustentável melhor? Ele quer ostentar o consumo. Ninguém quer uma moda que restringe. Querem viver bem, gastar. A moda eco é “chata” porque educa, restringe, poda esse comportamento.

 

 

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