Na moda, o passado nos condena... mas o futuro nos redime

Na moda, o passado nos condena... mas o futuro nos redime 18Mar
Moda

Ano 2002.

Gisele Bündchen tem apenas 22 anos, mas já é Gisele. Pela primeira vez, a gaúcha assume a liderança no ranking da revista Forbes como a modelo mais bem paga do mundo — título que manteria até 2016.

Quinta-feira, 14 de novembro.

Tendo como cenário o histórico prédio 69th Regiment Armory, em Upper East Side, Manhattan, Gisele participa do desfile anual da Victoria’s Secret. Pela quarta vez consecutiva, ela é uma das angels da grife de lingerie. No terceiro dos quatro segmentos, antes do grand finale, no momento em que a brasileira caminha em direção às câmeras, quatro ativistas da organização PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) invadem a passarela. Nos cartazes, se lê: “Gisele escória das peles”. (Cerca de um mês antes, a modelo estrelara uma campanha para a Blackglama, fabricante de roupas de pele. Nas imagens, ela aparecia envolta em casacos e estolas de vison.)

Enquanto as manifestantes são retiradas à força do evento, a gaúcha, cinta-liga preta e sapatos de salto alto vermelhos, segue impassível rumo à saída da passarela. Anos mais tarde, Gisele diria à Vogue: “Eu estava como em uma roda de hamster: ‘Vou fazer o que meus agentes mandam e ser uma boa garota’. Aquele choque me travou. Fiquei devastada. Foi quando parei de fazer campanhas usando pele”.

O protesto da PETA impactou a vida e o trabalho da modelo, sem dúvida; mas ele vai além de Gisele. É um dos marcos mais simbólicos da revolução pela qual a moda começava a passar e que, hoje, atinge seu ápice. Moda sempre foi sinônimo de inovação. Ditar o que as pessoas vão desejar no futuro, com o que elas vão sonhar na próxima temporada, era uma das características mais aspiracionais da indústria. Há 20 anos, o desfile de belas mulheres envergando peças de visons, chinchilas e raposas faria explodir avidez (e o consumo) por visons, chinchilas e raposas...

A lógica agora é outra, diametralmente oposta. “Como consumidores de moda, a maioria de nós mudou drasticamente nossos hábitos à medida que as tecnologias digitais e sociais transformaram a forma como fazemos compras, identificamos tendências e compartilhamos ideias e paixões (...) Os produtores de moda têm lutado para acompanhar os consumidores”, lê-se no relatório “Measuring the fashion world”, um panorama da indústria em 2018, elaborado pela consultoria americana McKinsey. O documento é categórico sobre a necessidade do setor “acompanhar os consumidores”.

Até pouco tempo atrás, era justamente o contrário — a maioria de nós aficionada por tendências, logos e marcas. “Hoje o consumidor é um cocriador da moda, retroalimentando o processo dos designers, em um diálogo em tempo real por meio da rede”, escreve Paulo Borges, idealizador e diretor criativo do São Paulo Fashion Week, em artigo para Época NEGÓCIOS.

Não vestimos mais apenas calças, camisas e vestidos. Vestimos causas; pelo meio ambiente, justiça social, ética, democracia... Mais do que nunca vestir-se hoje é um ato político. E ninguém leva essa máxima tão a sério e com tanta poesia e delicadeza quanto o mineiro Ronaldo Fraga. Na última edição da São Paulo Fashion Week, ele transformou a passarela em palco para uma enorme mesa de jantar, ao redor da qual se sentaram judeus e árabes; jovens e velhos; magros e gordos; homens e mulheres. Beijo gay, beijo hetero; crianças correndo ao redor. A coleção A Colina da Primavera faz do amor “manifesto de reexistência”, como define o estilista. A inspiração para o espetáculo veio em 2017, em um bistrô de Tel-Aviv. No cardápio, lia-se em hebraico: “Se nesta mesa se sentar um árabe e um judeu, damos 50% de desconto”.

Ultraconectados, os novos consumidores querem informação — e rápido. De onde a roupa vem? Como foi feita? O que significa? Um levantamento da empresa americana Daymon Worldwide indica que apenas 29% dos millennials são leais a marcas. “Eles têm um olhar atento para a qualidade, uma bússola moral e uma sólida compreensão do valor que os impulsiona a comprar apenas produtos nos quais acreditam”, disse a Época NEGÓCIOS o empreendedor Jeremy Cai. Ele próprio um millennial, aos 21 anos, em outubro passado, lançou a Italic, um e-commerce de acessórios de primeiríssima qualidade, apenas para sócios. As bolsas, cintos, óculos, sapatos, echarpes de cashmere e maquiagem vendidos pela empresa saem das mesmas fábricas de onde saem produtos das luxuosas Givenchy, Burberry, Prada e Lanvin, entre outras. Não se trata de plágio, frisa Jeremy. Todos os itens são desenhados por quem os confecciona. O que aproxima uma bolsa de couro da Italic de um modelo da francesa Céline é a qualidade da matéria-prima e o cuidado na manufatura. Enquanto a primeira custa US$ 250, a outra gira em torno de US$ 3 mil. Até agora, Jeremy já estabeleceu parceria com 15 fábricas e a lista de espera, pasmem, já está em 100 mil pessoas. Produtos de luxo, sem a ostentação da marca? Quem diria...

Mais um sinal da transformação do setor? Em 2014, por influência da PETA, a estilista inglesa Stella MacCartney suspendeu a compra de lã de um determinado fornecedor, depois de ele ter sido acusado de crueldade animal. Stella, aliás, é uma das vozes mais ativas da moda 4.0. “É hora de evoluir das palavras para as ações. Precisamos tratar o assunto no contexto dos negócios e não da filantropia”, defendeu Eva Kruse, diretora do Copenhagen Fashion Summit, na abertura do evento, em maio passado. Chamado de “Davos da moda” e lançado em 2009, o evento reúne lideranças globais em torno do debate sobre como transformar o setor em uma força positiva para a sociedade e o ambiente. Da última edição, realizada em maio passado, participaram 1,3 mil pessoas, de 53 países — 14% a mais do que em 2017.

 

Confira a reportagem completa no site: Época Negócios

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