O Brasil visto de fora

Qual o impacto da brasilidade na vida de quem não nasceu por aqui? Maria Eugênia Castellanos nos emprestou seu olhar. A designer uruguaia já trabalhou com empresas do Reino Unido, Argentina e Estados Unidos, além de ter estudado na Itália. Atuando hoje no Brasil, Maria Eugênia traz em seu trabalho a experiência internacional e o encanto pela nossa cultura.

 

O que mais te chama atenção na paisagem e cultura brasileira? 

O Brasil, no olhar do estrangeiro, impacta primeiro por sua natureza, clima, paisagens, praias de areias douradas, florestas exóticas que prometem grandes aventuras. A boa receptividade a leveza de espírito são experiências que ficam arraigadas na alma em forma de lembranças e memórias. Acredito que o que mais representa Brasil e seu povo são aquelas pessoas comuns que vamos conhecendo ao longo do caminho, milhões de individualidades e singularidades que juntas criam uma mistura original.

É um país onde as cores, formas, contrastes, texturas e diversidade convivem em harmonia e com naturalidade, formando uma paisagem estonteante. Um povo alegre, vibrante, multicultural, criativo. Misturando todas essas características chega-se à brasilidade.

 

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Quando começou sua relação com o Brasil?

Meu primeiro contato foi durante a época de estudante, quando fiz um curso em Santa Maria no ano de 1992. O fio condutor que permeava as palestras do encontro discutia justamente os tópicos de identidade e sociedade. Essa questão era um tanto estranha, já que para quem é estrangeiro tudo parece muito fácil reconhecer, saber o que é brasileiro no simples olhar. Ficávamos admirados com esses questionamentos.

Mais tarde voltei para Brasil para cursar um aperfeiçoamento em modelagem de calçado no ano 1998. A oportunidade e convite para trabalhar veio em 2002 e em 2006 comecei a atuar na área de consultoria de design para empresas brasileiras, levando os aprendizados das metodologias aprendidas junto as empresas internacionais, mas capitalizando os saberes e fazeres locais.

 

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Qual potencial da moda e da criação brasileira você destacaria?

Dentro da produção de moda, referências tanto da flora quanto da fauna tropical. Produtos com identidade regional também viram objeto de desejo dentro do Brasil, atendendo ao consumo interno ou para exportação, tudo aquilo que representa o estilo de vida descontraído, mistura espontânea de cores vibrantes, o saber e fazer manual.

Já tive oportunidade de visitar cidades de vários estados. Em cada uma delas encontrei um encanto especial onde podem ser reconhecidas as origens migratórias e suas influências culturais. Me inspiram as rendas e trabalhos de bordados na Bahia, no Ceará e Alagoas: cada cidade com sua especificidade, bilro, labirinto, filé, Richelieu, ponto cruz, renascença. Também o trabalho com o couro na Paraíba, que difere do trabalho em couro do Rio Grande do Sul. Há também o artesanato indígena do Amazonas e sua natureza exuberante.

 

Há alguma diferença em observar o Brasil a partir de um olhar de fora?

Tem particularidades regionais que saltam aos olhos porque mesmo havendo passado quase a metade da minha vida no Brasil, e adquirido os hábitos da região onde moro, eles diferem de outras regiões. A mistura de costumes faz com que o brasileiro seja um povo de hábitos diversificados. Acredito que estou no processo de mistura e de constante adaptação, mas mantenho viva a capacidade de surpreender-me dia a dia, o olhar curioso que leva ao aprendizado constante.

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