Obsolescência, indústria e uma alternativa à produção

O caráter cíclico da moda não impacta somente nossos gostos e inspirações. Recentemente, falamos por aqui sobre a tendência cada vez maior de releitura do passado que permeia passarelas e prateleiras de loja. Por trás desse fenômeno, um dos fatores relevantes é a durabilidade dos produtos que consumimos. A valorização do passado, expressa no crescente consumo em brechós, está ligada ao fato de que os produtos que consumimos hoje duram cada vez menos?

Daniel Fonseca da Luz é mestre em engenharia de produção e já colaborou com diversas empresas nacionais e multinacionais, além de ser professor universitário e ter publicado seis livros. Conversando com o IBB, o especialista abordou alguns dos problemas por trás da obsolescência programada e revelou: “As indústrias terão que se adequar a um mundo com menos recursos disponíveis e consumidores mais atentos”.

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“Esta ideia de diminuir o tempo de uso de produtos surgiu em 1925, quando se criou um cartel chamado Phoebus, formado pelos principais fabricantes de lâmpadas da Europa e dos Estados Unidos”, nos conta Daniel. “Eles decidiram diminuir a durabilidade de suas lâmpadas de 2.500 para menos de 1.000 horas, a fim de aumentar o lucro das indústrias. Porém, o termo ‘obsolescência programada’ só viria a ser criado mais tarde para poder girar a economia americana que enfrentava a grande crise de 1929.”

Se trata-se de uma prática industrial que já completa 90 anos, por que só percebemos essa diminuição de durabilidade nos últimos tempos? “Na indústria de bens de consumo e bens de capital, se percebeu esse processo mais fortemente estabelecido a partir da década de 80”. Daniel sustenta que a obsolescência fora acelerada por conta de um mercado competitivo cada vez mais acirrado, principalmente no setor automotivo.

Um conceito ainda novo no Brasil que deve ganhar destaque é o de economia circular

 

Na moda, o caráter de renovação das tendências presente na constante mudança de coleções acaba escondendo essa realidade que permeia a linha de produção. Em artigo, a pesquisadora Andressa Selau afirma que um meio para o sustento desse sistema é a moda, por se tratar de um campo que alia o pertencimento em grupo a uma efemeridade visual. “Os anseios pela busca de expressão social impulsiona o sujeito a depender da indumentária como uma fonte legitimadora dessa comunicação.”

Daniel, no entanto, lembra que cada vez mais estamos em direção a uma cultura que reivindica o controle de qualidade. “A Apple Brasil tempos atrás teve que pagar uma multa por seus celulares estarem com limites de uso estabelecidos por uma obsolescência programada escancarada que não permitia a atualização de seus dispositivos.” Sob uma fiscalização maior e um mundo cada vez mais sem recursos naturais, marcas e suas indústrias terão de buscar alternativas à produção. “Um conceito ainda novo no Brasil deve ganhar destaque: a economia circular, a qual faz com que toda cadeia de produção seja mais sustentável, passando por questões como logística reversa, redução de consumo e reutilização de embalagens”, finaliza.

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