Quanto luxo cabe num par de sapatos?

Fala-se tanto de luxo e diz-se tão pouco. Ao abusar deste superlativo, acabamos por lhe perder a essência. E o luxo, o verdadeiro, faz-nos falta.

Na sua aceção mais pura, um objeto de luxo é o resultado de uma paixão por algo em que queremos dar o nosso melhor, algo original que se distinga de tudo o demais, executado pela inteligência das mãos e pensado para alguém capaz de entender o quão extraordinário esse objeto é. Objetos concebidos até ao limite da imaginação e da originalidade, da harmonia, da beleza, do ínfimo detalhe. Objetos extra (ordinários), superlativos, raros, intemporais, que guardamos, cuidamos, reparamos, partilhamos e deixamos como legado para outras gerações. Este é o luxo que eu entendo e no qual acredito. O luxo do respeito pelo próximo, sempre que alguém supera o seu saber, para chegar mais longe e para surpreender o outro. Para lhe dar o melhor de si. O luxo que contraria a economia do aqui e do agora. O luxo que respeita o tempo: dos que criam, dos que executam, dos que apreciam e o tempo da própria natureza que exerce os seus milagres, ao proporcionar as melhores colheitas para os vinhos mais aromáticos, os diamantes mais puros para as joias de exceção, as peles mais perfeitas para os mais distintos sapatos…

Esse seria o luxo que deveríamos promover nas nossas indústrias. Chamemos-lhe cultura de excelência, se preferirem. A que nos faz tomar as rédeas do mercado e ditar o futuro e não ser ditado por ele. A que nos garante que tudo o que é feito com amor e excelência acrescenta-nos. A que nos faz criar valor e ser recompensado por ele. A cultura de reconhecer os nossos artesãos e as suas artes, a de incentivar os nossos criativos e o seu olhar e a de desafiar a visão dos nossos gestores e empreendedores. O luxo que nasce para emocionar quem nele trabalha e quem dele desfruta. O luxo que se destina, nas palavras de Oscar Wilde, a todos os possuem o mais simples dos gostos: satisfazem-se apenas com o melhor.

E quanto luxo cabe num par de sapatos?
Todo o que quisermos. E não necessitamos de o cobrir de ouro ou de pedras preciosas. Isso seria apenas torná-lo mais dispendioso, não necessariamente mais luxuoso. O preço no luxo resulta do valor intrínseco do que se cria. É um resultado, nunca uma premissa.

O valor resulta da visão de um artesão ou criativo em fazer algo diferente e na ambição de criar o melhor na sua categoria. Vem da superação diária. Vem da entrega. Vem da perícia em executar os gestos certos para dar a forma correta a um sapato, vem da exigência do seu acabamento, vem do olhar treinado para observar o mais ínfimo defeito. Vem de escolha dos melhores materiais. Vem do tempo, sem tempo, que é dado ao sapato para ganhar a patine que se pretende, vem de o embalar como a peça preciosa que é: com preceito, com detalhe. Vem de o dotar de uma vida que vai para além da vida e de um design com a maior das sofisticações – a simplicidade – que desafia o tempo e as modas. Vem do propósito de nunca comprometer a qualidade. Vem da ambição de criar mais do que um produto, uma relação com quem o adquire.

Antes de chegar aos nossos pés, existe num par de sapatos a marca de uma visão, de uma paixão, de uma inquietação constante da alma, de respeito e de uma longa história de superação humana e de excelência para contar.

Sim, num par de sapatos podemos ter todo o luxo do mundo.

 

Fonte: Apiccaps / Mónica Seabra Mendes, Universidade Católica 

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