Tricotagem 3D no horizonte da Orfama

Tricotagem 3D no horizonte da Orfama 27Mai
Inovação

Os números nem sempre contam a história toda e, no caso da Orfama, é exatamente isso que está a acontecer. A empresa faturou em 2018 o mesmo que em 2017 – cerca de 6 milhões de euros – mas o ano «foi positivo», garante António Cunha, sales area manager. «O nosso objetivo não é crescer em termos produtivos, é apenas crescer em termos de margem. Queremos ter clientes que possam pagar uma mais-valia pelo produto que fazemos e essa transição está a ser feita gradualmente», explica ao Portugal Têxtil. No ano passado, essa estratégia já permitiu colher frutos, já que, revela António Cunha, o volume de negócios foi praticamente o mesmo, «mas com uma margem superior».

Para isso contribui o foco da empresa em artigos tricotados com matérias-primas nobres e, cada vez mais, sustentáveis. Ao algodão orgânico soma-se a caxemira e a lã recicladas, por vezes em mistura com poliéster também reciclado. «Temos várias misturas. Usamos um fio novo de algodão reciclado com poliéster reciclado, temos 50% algodão orgânico/50% algodão reciclado e 97% caxemira reciclada/3% lã reciclada. Isto é uma grande novidade para o mercado, porque não há muita gente a fazer – nós já estamos a vender este produto no mercado», destaca o sales area manager.

Diferenciar pela tecnologia

Neste caminho trilhado pela diferenciação, a Orfama prepara-se para investir em teares de tricotagem integral da construtora japonesa Shima Seiki, também conhecidos como teares de malha 3D. «Cada vez mais as empresas têm que investir em tecnologia. O nosso produto é de muita mão de obra intensiva, porque é tudo remalhado à mão. Temos que encontrar soluções no mercado, a nível de tecnologia, que nos permitam fazer o mesmo produto e termos um preço competitivo», justifica António Cunha.

O projeto de investimento está a ser avaliado, sendo que já foram realizados testes com resultados positivos. «Tem que haver um compromisso entre aquilo que é possível obter em termos de qualidade e de preço. Obviamente que no processo tradicional consegue-se modelos mais flexíveis porque há a intervenção da mão de obra. Mas é um bom compromisso para determinados modelos, não para todos, em termos de preço e qualidade», resume.

A nova tecnologia irá permitir, acredita o sales area manager da Orfama, que emprega 250 pessoas, «fazer produtos diferenciados, com mais polivalência». Ainda assim, a empresa está a analisar cuidadosamente os benefícios e os possíveis desafios antes de assumir uma decisão final. «Tem que ser um estudo rigoroso do potencial destas máquinas e também do que o mercado está a pedir, para vermos a altura ideal para fazermos o investimento», afirma. Até porque, admite António Cunha, «estamos numa fase de transição a tentar encontrar os clientes de mais-valia que apreciam o tipo de produto que estamos a oferecer ao mercado e a preço justo. E esta transição leva algum tempo».

Mercado em mutação

A esta mudança interna soma-se a transformação do consumo de moda, que se reflete na produção. Pertencente ao grupo francês Montagut, a Orfama está ligada de forma próxima ao consumo, já que produz para as marcas próprias Maison Montagut e Poles. «Atualmente, o mercado muda muito rapidamente. O que é verdade hoje, na próxima estação já não é. E tudo isto tem que ser analisado com cuidado, de forma a que o investimento seja feito da melhor forma possível», acrescenta.


As marcas próprias equivalem a cerca de 50% da produção da Orfama, cuja capacidade produtiva ronda as 300 mil peças por ano. O restante é para private label, sobretudo para o mercado europeu. «No passado já foram os EUA o principal mercado, mas a diferença que há entre o dólar e o euro criou algumas dificuldades. A abertura dos países asiáticos levou também a que alguns clientes fossem para a Ásia. Mas nota-se agora uma grande demanda dos clientes americanos. A China já não é o que era», assegura António Cunha, que dá conta de um aumento dos preços no continente asiático. Um outro fator prende-se com as questões políticas. «Os clientes pensam que, mais cedo ou mais tarde, vai haver uma liberalização do comércio internacional europeu e as empresas querem estar presentes o mais cedo possível em Portugal para marcar posição», aponta. «Portugal é um país privilegiado para esses clientes. No futuro tenho a certeza que os negócios irão aumentar no mercado americano», garante.

Para já, e no espaço dos próximos meses, as expectativas são positivas. «O ano começou bem, temos a produção tomada até setembro», indica António Cunha, que confessa que a conjugação das marcas próprias com o private label ajuda a este equilíbrio. «Até setembro será um ano relativamente tranquilo. De setembro para a frente, só mais tarde é que podemos saber como vai ser a primavera 2020», adianta. No entanto, «estamos sempre a trabalhar em contrarrelógio. E é importante ter essa noção, para que as empresas consigam ir ao encontro e satisfazer o cliente», conclui António Cunha.

 

Fonte: Portugal Textil

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